sábado, 21 de julho de 2007

Fica o amor...


Meus diálogos com Agatha Christie - Por Marcelo Fróes
Publicado originalmente em 1986


Renato era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones. O mundo pode ter visto nele um rebelde agressivo, um poeta inconformado e um homem sofrido. Mas algumas pessoas tiveram a chance de conhecer uma figura das mais doces e frágeis. Por uma dessas inexplicáveis armações do destino, fui uma delas.

A primeira vez que vi Renato foi num show da Legião no Rio - Noites Cariocas, maio de 1985 -, com abertura do Capital Inicial. Confesso que naquela época "Música Urbana" me interessava mais que "Geração Coca-Cola". Renato só me chamou a atenção quando o vi tietando os Beach Boys no saguão de um hotel no Rio, durante a Eco 92. Enciclopédia ambulante do rock que ali se revelava um humilde fã, Renato surgiu como opção ideal para um papo sobre Beatles quando a EMI topou bancar uma viagem de pesquisa a Londres para um livro sobre o quarteto de Liverpool que publiquei com Ricardo Pugialli em 1992. A Legião ensaiava no estúdio da gravadora em Botafogo, quando fomos buscar nossas passagens. Renato vibrou com o projeto e deu algumas dicas de perguntas. Achei que nunca mais o veria...

Dois anos depois, quando Marcos Petrillo me convidou para encarar a profissionalização do International Magazine, conversamos sobre uma grande entrevista para marcar a nova fase. Ele sonhava com Renato Russo e ao mesmo tempo achava que seria impossível convencê-lo a falar. Liguei para a secretária dele e expliquei quem era, para ver se ele lembrava. Desliguei achando que ela não daria retorno.

Não deu mesmo. Quem retornou a ligação foi o próprio Renato, querendo saber em que poderia ser útil. Marcamos a entrevista para a tarde seguinte, às cinco, em seu apartamento na rua Nascimento e Silva, em Ipanema. Cheguei na hora, toquei o interfone e ninguém respondeu. Quinze minutos depois, parou um táxi e Renato desceu, já gritando: "Desculpa!" Subimos e falamos por três horas. Alguns meses depois de ter recebido o jornal, Renato nos ligou do Discover Studio elogiando e dizendo ter ficado muito satisfeito com a formatação da entrevista, enorme. Um alívio.

Nasceu dali uma amizade que infelizmente demorei a perceber. Reencontrei Renato no Prêmio Sharp, conversando com Jerry Adriani no saguão do Teatro Municipal. A partir daí, ele me ligava uma ou duas vezes por mês. Eu tentava convencê-lo a fazer shows - com ou sem a Legião -, chegando a perguntar se ele toparia ser vocalista de uma segunda apresentação sinfônica de George Martin no Brasil. Com inglês impecável e repertório dos Beatles na ponta da língua, Renato me surpreendeu ao aceitar a idéia. Recomendou que o assunto fosse tratado com seu empresário e disse que o avisaria de seu interesse. Quando fui visitar Martin na Abbey Road em maio de 1995, o presenteei-o com uma cópia de Stonewail Celebration Concert. Tão logo voltei, recebi um fax em que o produtor dos Beatles elogiava Renato: "He sings beautifully." Tirei cópia e levei pessoalmente a Renato, junto com o CD do Gene que ele havia me encomendado.

Senti que aquilo realmente o tocou, muito embora a idéia de trazer Martin novamente ao Brasil tivesse ido ralo abaixo depois que o maestro anunciou sua aposentadoria. Renato ficou admirando o fax antes de guardá-lo em seu quarto, voltando com o anúncio de que faríamos "uma troca de amigo". Deu-me três CDs - Crown Of Creation, do Jefferson Airplane, Get Happy, de Elvis Costello, e Bad Co., do Bad Company -, dizendo: "Você precisa ouvir outras coisas além de Beatles e Beach Boys!" Estes discos vão ficar para sempre juntos em minha estante, ao lado de uma cópia em VHS do videolaser The Making Of A Hard Days Night, que Renato acabara de adquirir e me copiara. Conversamos sobre a cena roqueira inglesa e acabamos na brasileira, com Renato declarando-me sua paixão pelo Pato Fu: "A Fernanda é uma gata."

Renato raramente demonstrava tristeza, apenas comentava uma recaída como justificativa para um sumiço ou outro. Pegou meus dados para fazer mapa astral e ligou-me em seguida, com o resultado do trabalho. Aquela demonstração de amizade gratuita me deixava sem graça: afinal, apesar de eu ter seu número de telefone desde o início, ainda me sentia culpado quando pensava em ligar para ele. Poderia pensar que eu estava atrás de uma nova entrevista, sei lá. Mas nunca precisei pedir. Tive a oportunidade de ouvir Equilibrio Distante em primeira mão, dia 20 de setembro de 1995. Em seguida, fiz nova exclusiva, jamais publicada na íntegra, tamanha a informalidade do papo, que rolou a tarde inteira na sala de som de Renato.
Quando comentei que faria uma viagem de fã a Nova York em novembro, junto com um amigo, para acompanhar o lançamento do Anthology dos Beatles, e para vasculhar os sebos e lojas de discos de Manhattan, Renato comentou: "Legal, talvez eu entre numa dessas." Acabou não indo, pois a Legião já estava trabalhando na pré-produção do novo álbum.

O ano de 1996 representou uma virada. Com o passar das semanas, Renato foi revelando-se cada vez mais cansado e deprimido. Mas me surpreendeu quando me convidou para seu aniversário, em março último. Poucas pessoas estavam presentes, o que eu estava fazendo ali com minha noiva? Renato demonstrava cansaço, mas estava lúcido como sempre, preocupando-se em nos apresentar aos outros convidados.

Nos meses seguintes, seus telefonemas, que antes sempre rolavam à tarde, começaram a pipocar madrugada adentro. O novo disco o deixava inseguro, tinha medo de que as pessoas não o entendessem. Mas, de qualquer maneira, disse que tão logo o trabalho estivesse mixado, eu seria convidado a ouvi-lo: "Você tem entrevista com a Legião na hora que quiser."

Madrugada de 4 de julho. O telefone toca, 5h20 da manhã e o dia está clareando. É Renato: "O que você está fazendo?" Penso rápido: "Bem, eu estava me preparando para dormir... pois amanhã tenho que acordar bem cedo!" Ele não entende: "Puxa, que pena, eu estou com o novo disco aqui prontinho e queria te convidar para vir aqui ouvi-lo em primeira audição mundial.

" Expliquei o drama e ele entendeu. No sábado, dia 6, estou com o pé no elevador quando o telefone toca: "Você não pode vir agora?" Eu não podia, mas acabei podendo. E não me arrependi.

"Você precisa entender que será a única pessoa no mundo a ter uma entrevista comigo a respeito desse disco", foi logo avisando. "Dê ao público a impressão de que você subiu numa montanha atrás do Pé Grande e conseguiu entrevistá-lo. Não quero falar com ninguém e sei que as pessoas estão incomodadas com isso."

Foi uma hora de conversa gravada. Enquanto o DAT rolava alto, Renato cochilava na cadeira. Vez ou outra, abria os olhos e perguntava: "E aí?" Ao partir, fui levado até a porta pela frágil figura de barba espessa. Um aperto de mãos e um olhar triste. Um abraço inevitável e o comentário sarcástico para quebrar o clima: "Poxa, essa história de casamento em dezembro está te fazendo engordar."

Exatamente um mês depois, o telefone toca. Renato estava com o disco pronto, masterizado pelos companheiros de Legião em Nova York. Chegando a sua casa, fui conduzido pelo empregado à sala de som, onde Renato ouvia The Jesus & Mary Chain. Batemos um papo, ele pergunta pelos preparativos do meu casamento e se diz satisfeito ao ver que pelo menos um amigo dele vivia bem em companhia dos pais. Depois me entrega a fita, explica que está cansado e que tem de sair com uma tia, a senhora sentada no sofá ao lado. Hoje imagino que aquela senhora fosse sua enfermeira e que o compromisso fosse voltar para a cama.

Em meados de setembro, estive na EMI e peguei uma cópia do single promocional de "A Via Láctea". Dois dias depois, Renato me liga. Falo sobre o single e ele estranha: "Que single?" Ora vejam, Marcelo Fróes com o CD nas mãos antes de mim! Como é a capa?" Dia 20, peguei o álbum A Tempestade na EMI. Foi emocionante.

Uma semana depois, domingo, o telefone toca ao cair da noite. "Oi Marcelo!" Falamos sobre o novo disco, sobre a matéria do IM e sobre uma entrevista com Lou Reed que eu fizera. Renato está cansado, mas vibra ao comentar os primeiros resultados do disco. Antes de desligar, convido: "Em dezembro a gente vai se ver no meu casamento." "Ainda É Cedo pra dizer se vou poder ir", corta. "Mas a gente vai se vendo, quem sabe para ouvir um som."

Vou sentir muita falta desse cara. Vou sentir muita falta de seus telefonemas, sempre surpreendentes. Certa vez, ele sugeriu: "Você deveria gravar estas conversas. Poderiam ser úteis... para um livro tipo Meus Diálogos Com Agatha Christie ou coisa parecida." Não lamento nunca ter gravado nossas conversas, mas admito que uma vez liguei só para gravar sua mensagem de secretária eletrônica. "Deixe seu recado após o sinal - se é assunto de trabalho, ligue para..." Nunca liguei para o outro número, muito embora tenha demorado a sentir-me livre da preocupação de estar "trabalhando" quando ligava para Renato. Acho que demorei demais para perceber sua amizade.


FONTE: BIZZ



Ao acabar de ler fiquei mais uma vez meio ansiosa, melancólica, triste e principalmente curiosa em saber mais desse líder de uma geração, e também por imaginar o sofrimento dele por saber da proximidade de sua morte... Acho que o fato de ele ter se fechado em copas, nos últimos meses de sua vida, se deve mais a esse sofrimento do que ao "estrelismo" a ele atribuído.

Beijos



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